43. Roberto Civita, o ‘rei’ da Editora Abril


O mês e a data específicos agora me fogem, mas me lembro de acabar de chegar ao trabalho, no prédio da Editora Abril em São Paulo, e já ouvir a bomba. “Hoje você vai coordenar a filmagem dos colírios lá no terraço”, disse o meu editor. Eu mal sabia por onde começar. Só sabia mesmo que a minha tarefa principal naquele dia era agilizar uma autorização urgente para gravar lá no topo, onde ele, o Civita, ficava.

Quase 11 da manhã de um dia de sol. De calça jeans, all-star surrado e camiseta podrinha, entrei no elevador e apertei o botão do 22° andar. Logo ao sair pela porta, já fui cercada por seguranças, que me perguntaram o que eu fazia ali. “Vou falar com a responsável pela segurança do terraço”, eu disse, meio assustada com abordagem. Sabia que chegar no andar do Civita era difícil, mas nunca imaginei que ele era cercado por seguranças até dentro da empresa. “Talvez eles estejam aí só hoje”, eu pensei. Bobinha. Falei com a moça que cuidava do andar e ela, meio tensa, me deixou gravar por lá. Só me deu algumas recomendações antes de terminarmos a conversa:

– “Você tem que subir até os próximos andares, tem que chegar lá no heliponto. Peço que use essa escada aqui, pra não fazer muito barulho e atrapalhar o Civita na sala dele. Vai ser bem na hora que ele está almoçando, então peço que vocês sejam breves.”

Ouvi aquilo tudo e só desejei uma coisa: que as gravações fossem canceladas por causa de algum imprevisto. Sei lá, um modelo não conseguiu chegar a tempo, a camisa de outro estava suja demais, alguém havia quebrado a perna… Apenas sei lá. E eu mentalizei tanto que o tal imprevisto aconteceu: o vento estava muito mais forte do que o microfone da câmera suportava. O ruído na filmagem ficou tão intenso que não deu outra, tivemos que descer para o jardim da editora. Esse foi o primeiro dia em que quase dei de cara com o Civita.

Na segunda vez, eu realmente o conheci. Estava atrasada, passei correndo pela catraca para subir e nem me atentei para o velhinho que, quando me viu correndo, segurou o elevador com a mão e me deixou entrar. Só quando apertei o botão do 14° andar, onde a CAPRICHO ficava na época, é que olhei pra frente e o vi, todo sorridente e simpático, com um segurança do lado. Me deixou ir no meu próprio elevador enquanto esperava outro, só pra ele. Cheguei na redação contando o quanto eu tinha sido sem noção.

Em 2009, mais uma experiência: a revista CAPRICHO foi eleita a publicação do ano no Prêmio Abril de Jornalismo. Foi ele, o Civita, que viu uma cambada de jornalistas coloridos e felizes dançando até o palco para receber a árvorezinha. Sorriu tanto, mas tanto. Naquele mesmo ano, em novembro, recebi um e-mail que não esperava: era dele, do Civita. Parabenizava a equipe do site da revista por ter conquistado oficialmente o posto de ‘maior site teen do mundo’. “Minhas queridas: Uau! Maiores do mundo! Que maravilha! Recebam meus mais calorosos parabéns – extensíveis para toda a equipe – pelo extraordinário (e merecido) sucesso! Um grande abraço, RC”, disse o ‘rei’ da Abril. Nesse dia, eu chorei. Chorei porque já estava meio sensibilizada. No fim daquele ano de conquistas, eu sairia do Brasil pra morar na Califórnia por um tempo, pra crescer como pessoa. Deixaria o lugar que eu tanto amava.

Quando voltei de viagem, em junho de 2010, voltei para a publicação que tanto curtia. Como era repórter de entretenimento, passava boa parte do meu tempo cobrindo shows e eventos. Foi num desses dias que, ao pegar o carro da editora, conheci um dos motoristas que já havia trabalhado para a família Civita. Me contou algumas coisas sobre uma das filhas do Roberto, mas eu me atentei mesmo para a história que ele me contou de um Ano Novo. “O que eu mais odiava era que eu nunca tinha tempo pra mim e pra minha família. Se me ligassem às 3 da manhã, eu tinha que ir. Levei a família para o Ano Novo na praia num dos anos que trabalhei pra eles. A festa lá na casa foi enorme e todos estavam juntos. Ele até me convidou para comer lá dentro”, disse o motorista, encantado. Eu sabia que o Civita era desses que faziam gentilezas assim.

Minha última vez cara a cara com o Civita foi na volta de um almoço, no ano passado. Com todas as outras meninas da redação, ria das piadas do refeitório e, ao entrar no elevador, o vi e fiquei quietinha. Duas delas não perceberam que era o Civita que ali estava e chegaram até a gritar um “não empurra, caralho” depois de pisar no pé dele. Ele não deixou de sorrir. Assim que saímos do elevador, o ouvimos sendo fofo:

– “Essas são as teens da CAPRICHO!”, disse, aos risos.

No domingo, o Civita, que eu costumava chamar de “vovôzinho fofo”, se foi. Se foi no mesmo fim de semana em que perdi a minha vovózinha de sangue, a minha vovózinha “arretada”. Se Dona Isaura encontrar com o Civita lá onde eles estão, certeza que vai convidá-lo pra dançar um bom axé. E vai chamá-lo de “filé”, igual chamava todos os gatinhos da praia quando eu passava férias lá na Praia dos Milionários, em Ilhéus.

One thought on “43. Roberto Civita, o ‘rei’ da Editora Abril

  1. Bom, amei a sua ideia para este blog! Nunca tinha visto nada do tipo e estou adorando suas postagens! Conheci o blog hoje mas já vi que irei passar algumas horas por aqui!!
    Parabéns!

    meanalisaram.wordpress.com

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