113. Steve, o escritor que sorria com os olhos

Estacionei o Jeep que alugamos em frente à caixa de correio de número 805 da R. Avenue. Eu não aparecia ali há exatos sete anos. Entrei pelo quintal arborizado e fui em direção a porta. Se eu estivesse no Brasil, provavelmente diria que o lugar havia sido arrombado. Por ter morado meses ali, não estranhei. Daquele lado do mundo era normal viver assim, sem se trancar as sete chaves, sem apelar para as grades, e sem precisar comprar alarmes e câmeras de segurança.

Gritei o nome dela, da Terri. Primeiro baixinho, esperando que ela estivesse na cozinha preparando o café da manhã – ela amava cozinhar e passava boa parte do tempo naquele espaço da casa. Ninguém atendeu. Aumentei o tom da voz, esperando que, assim, ela me ouvisse. Nada. Gritei mais alto, já preparada para dar explicações caso algum vizinho aparecesse para tirar satisfação. Não parecia ter ninguém em casa.

– Tô estranhando tudo estar aberto e ela não estar aqui – eu disse, ao meu namorado, enquanto voltava para o carro e pensava em abortar a missão. Talvez voltar em outro momento fosse o melhor a se fazer.

Por um tempo, ficamos sentados dentro do carro no topo da colina, vendo de longe o céu azulado a nossa frente. Algumas músicas da minha playlist de viagem de carro tocaram e, após alguns minutos, resolvi fazer uma nova tentativa.

Me aproximei novamente da porta, chegando tão perto que me senti invadindo a casa. Chamei, chamei e, mais uma vez, nada. Pensei que, talvez, a Terri tivesse se mudado daquele lugar que mexia tanto comigo. Descartei a possibilidade depois de uma leve espiada do lado de dentro. A decoração continuava a mesma  e havia fotos do Steve espalhadas por toda a sala de estar.

Gritei o nome de Terri de novo, mais alto. Nenhuma resposta. Se meus ouvidos não fossem tão apurados, talvez eu não conseguisse ouvir, bem baixinho, o som de um chuveiro ligado.

Alguém estava em casa. No quarto dos fundos, tomando banho.
Esperei.
Cinco minutos de pé e nada.
Dez minutos ali, parecendo uma intrusa, e nada. Até que o chuveiro parou.

Gritei o mais alto que pude. O jardineiro da casa da frente virou a cabeça para me observar. Lá de longe, pude ouvir a voz da qual eu me lembrava bem:

– Eu perdi algum compromisso? Quem está aí? – perguntou. Dei risada e disse que não, que era só uma amiga passando para visitar, e que esperava que ela se lembrasse de mim.

– É a Mariela? Parece bastante a voz da Mariela…

– Não, é alguém que, provavelmente, veio de mais longe – afirmei.

A Terri então apareceu na porta, ainda enrolada na toalha de banho, com o cabelo molhado, e precisou de três segundos para me reconhecer.

– Meu Deus! É a minha brasileira…

– Sim, a Aline…

– Ah, eu não consigo acreditar no que estou vendo! Como… Como…? Eu estou tão feliz de te ver!

– Eu também! Mas vá colocar uma roupa porque eu não quero ver você quase pelada por muito tempo – brinquei. Ela gargalhou e desapareceu pelo corredor da casa. Antes de fechar a porta do quarto, voltou para me olhar e me deu a notícia que eu não gostaria de ter ouvido:

– Ok, antes que você me pergunte… O Steve morreu.

Senti meu coração mais pesado. Por um segundo, me senti completamente gelada. Parecia que não era sangue correndo nas minhas veias.

A verdade é que eu já imaginava que algumas coisas estariam diferentes caso, um dia, em voltasse. O Ian, filho único da Terri com o Steve, talvez já até estivesse formado e com filhos. O Eddie, o simpático Beagle da família, provavelmente não estivesse mais vivo explorando cada canto do quintal de grama. Os gatos, principalmente a Shiba, que me inspirou a adotar a minha gatinha Summer, provavelmente já tivesse tido uns outros oitocentos filhotes… Mas o Steve… Eu nunca havia pensado na possibilidade de Steve não estar mais entre nós.

Em 2010, quando pisei ali pela primeira vez, não sabia muito bem o que esperar. Recebi, ainda no aeroporto, a notícia que a minha escola de intercâmbio havia mudado minha família anfitriã da noite para o dia. Eu não mais moraria na casa de uma tal de Marie, que tinha uma filha adolescente e um filho criança. Não moraria em Goleta, nem teria que me esforçar para acompanhar a família em seus hobbies – que iam desde acampar até andar de bicicleta na praia. Eu tinha passado seis meses achando que aqueles seria meus hosts.

Totalmente “no escuro”, fui “entregue” como uma espécie de encomenda naquele mesmo número 805, onde agora, sete anos depois, eu estava. Sem saber muito bem como agir, arrastei minha mala enorme e bati na porta. A vergonha, a ansiedade e o cansaço depois de quase um dia inteiro viajando, me dominavam. A primeira pessoa que me recebeu foi ele, o Steve.

Steve tinha uns 65 anos e tinha um desses sorrisos que não se via na boca, mas nos olhos. Era alto e forte. Falava baixo, era calmo e, depois percebi, era craque em se comunicar. Fazia frio – uns 9 graus. O Steve pediu para que eu entrasse. Me oferece um copo d’água e disse que a Terri, que ia cuidar de mim e me mostrar tudo sobre a minha nova vida, chegaria em breve. Eu era um poço de curiosidade – e ele percebeu. Sensível e astuto, disse que eu poderia fazer todas as perguntas que eu quisesse. Eu praticamente o metralhei.

Descobri que ele era professor de inglês na faculdade e escritor de livros. Também me contou que recebia alunos há mais de 20 anos. Mostrou o quarto que eu dividiria com a Trine, uma dinamarquesa que, depois, se tornaria uma das minhas melhores amigas – e também a minha primeira ex-amiga. O carro de Terri estacionou na frente da grande casa e, então, sorrindo, ele avisou que me deixaria com ela. Eu ainda tinha muitas perguntas.

Naquele dia, à noite, jantamos todos numa mesa redonda. Terri fazia questão de que todos os estudantes sentassem juntos para conversar. Steve também adorava a interação – e sempre dava um jeito de provocar risadas enquanto comíamos. Tinha o humor tão apurado que, às vezes, confesso, eu não conseguia entender o que ele falava.

Os meses se passaram e Steve precisou focar mais e mais em seus livros. Passava boa parte do tempo escrevendo na sala de estar. Pedia silêncio toda vez que nós, as seis meninas da casa, fazíamos baderna nos quartos. Eu sempre pedia desculpas e perguntava como estava o processo criativo. Ele dizia que estava “parado”. Inspirada por uma vida nova, eu não sabia o que era passar por bloqueio.

Numa madrugada, bebi mais do que deveria em Isla Vista. Havia comido feijão naquele dia e, quando voltei de uma festa, passei muito mal. Coloquei tudo para fora no caminho para o banheiro – que também era o corredor de acesso ao escritório de Steve. Mesmo não conseguindo parar em pé, pensei que seria um absurdo se eu deixasse todo aquele gorfo no chão. Eu não ligava que Terri visse aquilo. Eu me preocupava era com Steve. Zonza, limpei o carpete no escuro. Talvez contasse sobre aquilo para o Steve um dia.

Mais alguns dias se passaram – e foi só aí que percebi. Eu arrumava os últimos detalhes da minha mala e o Steve passou em frente a porta do meu quarto, sem olhar para dentro. Seus braços e suas mãos tremiam mais do que o normal. Tremiam descontroladamente. Ele parou em frente a um aparador e suspirou. Assim que deixou o cômodo, fui ver o que havia ao redor. Encontrei um panfleto com um infográfico sobre a Doença de Parkinson. Me calei.

Eu ainda refletia sobre o que a Terri havia revelado quando ela voltou, com um vestido todo florido. Me abraçou e perguntou se eu a ouvi gritando no banheiro. Eu disse que não. Ela me puxou para mesa e me contou que ele havia partido duas semanas antes.

– Cheguei muito atrasada – lamentei.

Com os olhos cheios de lágrimas, passamos algumas horas conversando sobre solidão. Quase dois meses depois, eu também descobriria como ela se sentia.

One thought on “113. Steve, o escritor que sorria com os olhos

  1. Uau. Imagino o quão emocionante também foi para a Terry te reecontrar. Não é incrível pensar que mudarem sua host family de um dia pro outro era algo que tinha que ter acontecido para encontrar essas pessoas bacanas? A vida é um treco muito louco mesmo. :)

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